sexta-feira, 17 de junho de 2016

DELAÇÕES INDUZIDAS DE MACHADO FAZEM PARTE DO PLANO DE PODER DA “REPÚBLICA DE CURITIBA”: DIANTE DA CRISE DO REGIME “LAVA JATO” JÁ É O EMBRIÃO POLÍTICO DO FUTURO GOVERNO BONAPARTISTA DE MORO


Antes de mais nada é preciso esclarecer o termo marxista "bonapartista", confundido pela esquerda revisionista com sinônimo de "autoritário e antidemocrático". Para o próprio Marx um regime bonapartista significa bem mais do que um governo "ditatorial", representa em síntese um poder estatal burguês que aparentemente pode atuar contra os interesses de sua própria classe social. Por exemplo, a prisão dos maiores empreiteiros do país, fato inédito na história do Brasil, foi um típico ato de um poder bonapartista, neste caso, ainda um embrião de governo liderado pelo juiz Sérgio Moro e sua anturragem do MPF. Retomando ao outro Sérgio, o Machado, sua espetaculosa delação é apenas um peça na engrenagem da estratégia da "República de Curitiba" em desmoralizar politicamente o núcleo pemedebista do golpista Temer. Machado não sofria ameaça alguma de prisão (nem sequer processado pela Lava Jato estava) tampouco seus filhos morando bem longe do Brasil poderiam ser implicados pelos crimes do PMDB na Transpetro, gerenciavam um fundo financeiro sob legislação britânica, portanto as justificativas para a delação de Machado, com requintes de ópera bufa, são todas risíveis e não se sustentam diante de uma análise mais rigorosa dos fatos que abalaram mortalmente o governo "tampão". Machado está atuando friamente sob as ordens de Moro tendo a prometida perspectiva de fortalecer seu grupo econômico (empresas de comunicação, TV e rádio) em um futuro regime bonapartista que destroçaria seus concorrentes regionais (emissoras ligadas ao senador Tasso Jereissati, ex-sócio de Sérgio). Esta por sinal será a "especialidade" do próximo governo bonapartista de Moro, liquidar grandes monopólios capitalistas para beneficiar outros... As "revelações" de Machado são uma obviedade ululante, somente parvos e idiotas se escandalizam com o fato de que no modo de produção capitalista todas as transações comerciais que envolvem o Estado (no sentido amplo do termo) são adicionadas das comissões para cada "gestor" político que celebrou o contrato (a mídia corporativa costuma apelidar equivocadamente de propinas). Desde a compra de um simples lápis escolar pela prefeitura do interior do Amazonas, passando pela reforma do prédio da justiça federal de Brasília ou a construção de uma grande refinaria da Petrobras, as comissões são pagas para os "gestores" na mesma certeza que o sol nascerá e se porá no dia seguinte. As "comissões" são um mecanismo de reprodução do capital para aquecer a cadeia da economia, além de serem apropriadas em parte para o patrimônio pessoal dos "gestores". Não existe uma só economia capitalista do planeta onde não se exerça a prática das "comissões" no âmbito do Estado, a diferença é que em países imperialistas esta prática é regulamentada pela legislação para escapar da pecha da "corrupção". No Brasil o governo da Frente Popular "democratizou" a cobrança das comissões, tanto baixando seus percentuais como ampliando o leque de partidos que dela se beneficiaram. Este movimento do governo petista acabou desagradando parcelas do establishment político que pretendiam manter a antiga estrutura tucana das comissões, bem mais seletiva e muito mais cara. O fato é que todos os partidos que possuem registro institucional, do PSOL (oposição de esquerda) ao DEM (oposição de direita) acabaram abocanhando um naco das comissões obtidas sob a égide dos governos da Frente Popular. Agora que Machado detalha o funcionamento do esquema das comissões da Transpetro ("a mais honesta madame dos cabarés do Brasil") fingem estar chocados os falsos vestais do PMDB, PT, PSDB, PCdoB, PSOL etc... A cara de pau não tem limites quando é encenada para um público de "Homer Simpson". Porém o foco deste artigo não é a abordagem das históricas "comissões" republicanas, parte inerente a qualquer regime capitalista e sim a espetacularização  destas pela mídia, vocalizadas agora pelo marionete Sérgio Machado. A quem interessa e a serviço de que movimento político estão as "bombásticas denúncias" do filho do Ministro janguista da Viação, exilado após o golpe militar de 64? Claro como uma manhã nordestina que Machado opera como um simples peão no tabuleiro da luta pelo poder do Estado, travado pelos "intocáveis" de Curitiba, seu alvo: mostrar ao país que a quadrilha de Temer é tão corrupta ou mais do que o bando petista apeado do governo. Próximo passo da Lava Jato será definir os prazos de validade do interino Temer, ou seja, se o golpista tem condição política de concluir o ajuste neoliberal iniciado por Dilma ou terá que ser retirado por meio de "acordão nacional" que antecipe a realização das eleições presidenciais. Nesta segunda alternativa Moro já costura um acordo com a REDE, forçando Marina a ceder a cabeça da chapa, não por coincidência a Lava Jato resolveu expor a irregularidade nas contas "suspeitas" da campanha eleitoral da ex-senadora petista. Com o agravar da crise política, impulsionada pela aliança titânica entre a "República de Curitiba" e a mídia "Murdochiana", não nos surpreenderíamos se Dilma e Temer abraçarem conjuntamente a "tese" de novas eleições, tudo dependerá daqui para a frente do nível dos "esgotos republicanos", caso transbordem não restará outro caminho a não ser a convocação de novas eleições, já que ironicamente tanto PT como PMDB juram fidelidade absoluta com a Lava Jato. Quanto a Moro, que inocula seu "veneno ético" mortal em todo o espectro da política nacional (da esquerda a extrema direita), só resta compassar seus movimentos para instaurar um regime de "salvação patriótica" para livrar o Brasil de "todos os políticos corruptos", erigindo um governo bonapartista em parceria com novos agentes capitalistas (muitos dos quais sediados nos centros imperialistas), que de certa forma estão marginalizados nas estruturas de poder do PT, PMDB e PSDB.


A burguesia nacional coloca suas fichas em duas apostas para atenuar a crise gerada pelo esgotamento do "modelo de gestão estatal" de colaboração de classes, inaugurado pela Frente Popular em 2003. A primeira aposta é redirecionar a combalida economia para um novo eixo internacional, avaliando que os BRICS não oferecem mais o suporte de absorver a exportação das commodities nacionais. A segunda aposta, fruto da decisão anterior, vai no sentido de reajustar o regime político na medida de adequar as reformas neoliberais internas e garantir um governo bonapartista para celebrar os novos "pactos" com outros setores das classes dominantes (alijadas dos governos petistas) e o imperialismo ianque. Nesta etapa de transição turbulenta, onde se rompeu o cronograma eleitoral, a função da Lava Jato é "lembrar" a Temer que sua "ponte para o futuro" deve ser breve, inclusive já tendo nome e sobrenome: Sérgio Moro. Por isto mesmo o interino golpista está sendo chantageado sistematicamente no Planalto pela "República de Curitiba" antes mesmo de iniciar seu "pacote de bondades" no Congresso Nacional. As "confissões" de Machado (homem cooptado para o esquema de Moro) são apenas um aperitivo do que ainda está por vir.

Como uma alternativa de poder já constituída a "República de Curutiba" debutou em 2015 com sua plataforma de governo bem delineada: obstruir o crescimento industrial da Petrobras, nos setores do refino e fabricação de plataformas. A "iniciativa" criminosa da Lava Jato foi favorecida pela conjuntura negativa do preço mundial do barril de petróleo, o resultado foram  as paralisações nas obras das novas refinarias do Rio e Recife e a desarticulação das empresas subsidiárias na construção de novas sondas e plataformas. O beneficiário direto desta operação foi o truste petrolífero das multinacionais do setor, já que o Brasil é grande importador de derivados refinados do óleo cru e recém retomava o funcionamento da indústria naval no país, totalmente solapada na era FHC. Para resumir, a Lava Jato apenas usou o pretexto da "corrupção" existente na Petrobras para debilitar a estrutura da estatal, seguindo desta forma o primeiro item de sua plataforma de governo: favorecer a desnacionalização da economia brasileira. Interromper o mandato de Dilma, pela via de um golpe institucional, não significa para a "República de Curitiba" apoio incondicional a Temer e a quadrilha do PMDB. Se Moro se utilizou de figuras como Cunha, Temer e Renan para apear o PT do Planalto, foi por um pragmático cálculo político e não se pode descartar que a própria Lava Jato venha ser a algoz destes bandidos de Brasília. 

Nos frios e imundos cárceres de Curitiba até agora só estão "alojados" dirigentes petistas e empresários que estabeleceram "parcerias" comerciais  com o governo da Frente Popular, nenhum cacique pemedebista foi preso, a não ser o ex-senador Sérgio Machado que ficará "detido" em sua suntuosa mansão em frente ao belíssimo mar de Fortaleza. Porém o coadjuvante de Moro na PGR, Rodrigo Janot, não para de enviar ao STF pedidos de investigação e até mesmo prisão contra os dirigentes da máfia palaciana e pemedebista, uma barganha permanente que facilita a vida de Moro e sua anturragem curitibana. Ainda é muito cedo para finalizar um prognóstico preciso acerca do desenlace dos golpes da Lava Jato e sua " cavalgada" até o Palácio do Planalto, existe um Temer no meio do caminho e uma Dilma "pendurada" no Alvorada. Por outro lado o calendário eleitoral oficial só será reaberto em 2018, e não se sabe ainda se o  "apetite" de Moro pode esperar até lá, entretanto o mercado exige a conclusão do "ajuste" e para os barões do cassino financeiro a política não deve atrapalhar a economia, neste ponto o ministro Meirelles está aferrado ao cargo.


O movimento operário e popular não pode estar subordinado as variantes burguesas que se postulam como alternativas de governo diante da crise estrutural do regime capitalista. A vanguarda classista do proletariado deve começar a debater e organizar sua própria alternativa de poder em oposição frontal ao bonapartismo que surge para ocupar o espaço vazio da falência política da Frente Popular. O PT já demonstrou que não tem nenhum interesse em derrocar o governo golpista de Temer, quando muito acena com a proposta de antecipação de novas eleições, um verdadeiro "presente de natal" para os planos nefastos de Moro e sua famigerada Lava Jato. Somente o combate ideológico por um poder revolucionário, produto da luta direta do proletariado e não das viciadas eleições burguesas, poderá apontar um norte socialista para a catástrofe em curso do regime capitalista.